Carta a Danilo ou Divagações em torno de Derrida (Maquiavel esquecido)

Danilo,

Penso que “Maquiavel esquecido” de Derrida, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, introduz sinteticamente a coletânea de seminários que está sendo editado na França e nos EEUU, intitulado como o primeiro volume de “A besta e o soberano” (tradução de La bête et le souverain ou the beast and the sovereign). Adquiri a edição em inglês da University of Chicago Press, via Amazon. Nós sabemos quão desinteressado permanece o mercado editorial brasileiro pela obra de Derrida e de outros filósofos contemporâneos.

Ao ler a primeira seção do seminário, percebi duas questões. Primeiro, o estudo do político, delimitado no Estado, seria a ponta do iceberg que não poderemos vislumbrar pela morte de Derrida. Talvez, os seminários por vir nos mostrem o desenvolvimento de uma obra que nunca se efetivou de maneira mais direta, já que não poderíamos esperar uma obra sistemática. Nesse sentido, há uma seqüência temática que evolui por descontinuidade nos textos de Derrida até nos depararmos com esta intervenção escrita.

Diria talvez que a questão da animalidade tem seu aparecimento duplo em “Otobiografias” (ou “A orelha do outro”) e no ensaio sobre Heidegger, “Do espírito”. Consolida-se em “Animal que logo sou (a seguir)”. Posteriormente, a investigação se direciona para o político se define “com mais evidência” em “Rougues” (Canalhas ou Delinqüentes, sem tradução para o português). Na verdade, queria divagar um pouco por determinadas passagens a fim de contribuir para o enriquecimento de sua leitura, se for possível e permitido. Algumas considerações serão triviais ao ponto de nos deixarem desconfortáveis com nossa falta de perspectiva. Não seguirei uma ordem fixa a leitura do texto; vou ao passo que as instituições me acometam.

A besta ou a bestialidade. De cara, Derrida trata a dimensão da bestialidade e do soberano com uma questão de gênero. A fêmea e o macho geram um conflito para a definição do “próprio do homem”. É preciso não cair na lógica da oposição. A oposição mesmo se configura entre o homem e o animal. Contudo, observe que o príncipe deve tornar-se besta. Na verdade, o soberano é um besta. Se fizermos um pequeno desvio para a Grécia, Aristóteles nos ensina que a bestialidade está fora da Pólis (tanto quanto a divindade).

Ora, não se pode confundir bestialidade com animalidade.

Entre o homem e o animal, há um complemento. Logo, um homem é animal por natureza e grego por uma segunda natureza, a política – Hannah Arendt e Giorgio Agamben não ensinaram outra coisa a nós. A animalidade se desdobra em humanidade, em certo sentido (Paidéia/ Humanitas). De outro modo, a besta não é nem homem nem animal; é os dois de uma só vez. A bestialidade está no meio: devir homem do animal e devir anima do homem. Aí, fica patente a referência ao Devir-animal consagrado por Deleuze e Guattari em “Mil Platôs”. “Capitalismo e esquizofrenia” passa a ser uma influência para Derrida a esta altura de sua obra.

A besta será a condição de possibilidade para se constituir um discurso da soberania do homem e a força do soberano. Logo, a lei e a força são condições para se dizer o “próprio do homem”, sua vida dupla, anfibologia do soberano. Se a bestialidade é a condição de possibilidade da soberania, ela será afirmada e negada. Sua apropriação (tornar-se próprio) depende dessa aporia.

Afirmá-lo é possível no princípio de força que sustenta o soberano (coerção e força-de-lei). Uma raposa e um leão. Talvez, ambos nos dêem uma visão de unidade ou totalidade. A raposa age de forma individualizada, sua vida se perfaz enquanto individuo. Mesmo constituindo uma estrutura parental, a noção de unidade permanece. Ela representa a inteligência, ou melhor, a virtú do príncipe. De outro modo, o leão se efetiva na vida gregária, sua vida está marcada pela autoctonia. O leão é o sedentário animal das estepes; constitui um quase-clã (não me refiro aqui à dinâmica da estrutura parental; o valor dessa representação está na montagem de uma estrutura centrada, territorializada). Ambos são animais de território específico e limitado.

Como negação da bestialidade, o inimigo deve ser caracterizado igualmente como tal coisa feroz. A figura do lobo é constituída como matilha, bando, própria exterioridade do homem soberano. A matilha age por multiplicidade. Não revela imediatamente sua liderança. Há um lobo a ser seguido, mas sua estratégia é nômade. Se antes a raposa e o leão representam uma territorialidade fixa, os lobos transitam, seu território está por vir. Cabe uma ressalva: não me atenho a uma etologia desses animais; o estudo de seu modo de vida resta secundário em relação à metáfora que suscitam.

Não devemos esquecer que a retoricidade permeia a teoria do estado e da política. Existe uma tradição bestial no pensamento político. De certo, há uma mitologia estatal (lembro-me de um belo livro de Ernest Cassier, pouco valorizado, mas muito profícuo). Não se pode perder de vista, a besta transita entre o natural e o humano, o real e o imaginário, sem, contudo, ser meramente simbólica. A besta é devir, a différance da constituição do político-estatal. Dessa maneira, Aristóteles, Hobbes, Maquiavel são exemplos do criativo bestiário. Em certo sentido, Kant enuncia a hipótese de uma bestialidade não declarada, subliminar em resistência. Isto é, a socialidade insociável do homem manifesta em silêncio a besta que assombra o Estado (de direito), que amalgama lei e força para conter a ferocidade humana dentro de sua ferocidade legitimada. Lembremos sempre, para Kant, a razão não é natural, mas oposta a natureza, um artifício.

Manter a palavra. A questão principal do texto está no viés moral (ético) em que se interroga o príncipe. Ora, manter a palavra, mas esta se articula em um contexto. “Não há fora-do-(com)texto”, já era enunciado, de alguma maneira, desde a Gramatologia. A palavra depende de uma referencial constituído fora da palavra, mas que a invade ou a desdobra. Ora, nesse ponto, o simulacro é o contexto (Não há fora-do-simulacro?). talvez, sendo provisório, diria que o simulacro tem duas vidas: Deleuze e Baudrillard.

O simulacro deleuzeano solicita a inversão do platonismo. Fazê-lo emergir é possibilitar a constituição de uma imanência no devir e na multiplicidade. O devir é a multiplicidade, na disseminação dos simulacros. Por outro lado, Jean Baudrillard percebe o simulacro como a suspensão do princípio de realidade. Em Deleuze, teríamos uma ontologia do simulacro e da diferença; em Baudrillard, uma “psicologia moral” (reconheço, aqui, minha leitura incipiente nesse filósofo), ele denuncia um estratégia política sustentada na simulação.

Algo salta na leitura de Maquiavel esquecido: a simulação é um artifício para encobrir as ações efetivas do príncipe. Cria-se uma miragem englobando e dispensando o real (a algo de hegeliano nisso tudo, não?). Isso seria conseqüência da inversão do platonismo?Deleuze, por um lado, abre as possibilidades múltiplas, criando uma infinidade de agenciamentos (desejos). No rizoma, a potência imanente torna-se a produção do que chamaremos real ou existência. Por outro lado, Baudrillard denuncia como uma perspectiva pode se apropriar (tornar próprio) do simulacro de forma quase-platônica, despotencializando a imanência.

É preciso constituir, logo, um olhar deslocado à medida que o simulacro tem duas vidas ou duas potências. A intensidade (força e fraqueza) domina a decisão do príncipe. É necessário sempre potencializar sua posição e sua imagem. Os príncipes contemporâneos leram bem Deleuze. Ou, para ser justo, eles agenciaram suas representações no simulacro do simulacro.

Intimidar o inimigo. A construção de uma imagem é o problema. Tal como se coloca no texto, poderíamos ter a hipótese de que o problema da imagem é o da representação. O juízo reflexivo (kantiano) mantém o príncipe vinculado a bestialidade: “O príncipe humano de conduzir-se como se fora uma besta”. Este “como se” nos possibilita apropriações das mais variadas. Por exemplo, o estado é como se fosse um homem maiúsculo (Platão e Hobbes concordaram bastante nisso); ou a vontade do povo se expressa no governante (um “como se” implícito do estado moderno e do liberalismo político).

Provoca-se outra imagem, nesse instante. O íntimo do inimigo pode ser revelado para em fim ser atacado. No caso das táticas estadunidenses, conhecer o íntimo é compartilhar-lhe algo. A própria imagem do soberano bestializado e enfurecido não está longe do inimigo fundamentalista e irracional, como se o fundamentalismo fosse um irracionalismo.

Só que é mais problemático. A construção do íntimo do inimigo é possível a partir do “próprio” do Estado. Aquilo que Derrida enunciou como “auto-imunidade”. O estado procura a autonomia, autarquia e para isso constrói a auto-imunidade: um sistema de defesa que se volta contra o próprio corpo. É preciso ter em mente, registrado em toda sua capacidade, que o terrorismo é produto de treinamento e financiamento das instituições de inteligência norte-americanas.

O fundamentalismo foi sustentado contra um inimigo maior, o socialismo real. Assim, o terrorismo tem um traço de americanismo, fabricado nas estratégias silenciosas da política da Guerra-fria. Logo, o intimo do inimigo foi criado pelo próprio soberano. É interessante sempre perceber que o paradoxo da soberania se manifesta nesses eventos. Entretanto, o ponto em que a busca de uma consciência autônoma, auto-suficiente destrói-se a si mesma. A ruína da Aufhebung do sistema estatal.

Não se pode negar que, para intimidar o inimigo, é satisfatório ter-lhe intimidade. Tal qual o soberano, o terrorismo tem um hibridismo. Ambas são construções híbridas, bestiais. Parece, então, que a lei do mais forte pode ser agenciada sem maiores entraves. Há um performativo administrando tudo isso: a promessa de, caso as razoes não sejam seguidas, a feras darão razões mais fortes para tal.

Meu caro amigo, as invenções são o que nos possibilitam. Inventei o que pude.

Até mais…

Manoel Uchôa

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Sobre Desconstrução e Direito

O objetivo do grupo DESCONSTRUÇÃO e DIREITO consiste em compreender a obra de Jacques Derrida frente aos problemas jurídicos fundamentais: justiça, soberania, hospitalidade, norma, decisão, direitos humanos e poder, etc. Buscando dialogar com as teorias tradicionais e críticas da área jurídica, o grupo mantem uma articulação com pensadores afins ao debate pós-estruturalista. Coordenado pelo Prof. Ms. Manoel Uchôa.
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