Sobre a tradução de Différance de Jacques Derrida

Sobre a tradução de Différance de Jacques Derrida

por Manoel Uchôa

              Uma das características do pensamento de Jacques Derrida consiste em oferecer termos intrigantes. A fim de criticar a significação e as bases do pensamento metafísico, o filósofo cria neologismos baseados naquilo que ele definiu como “rasura”, ou seja, os termos não podem ser conceituados plenamente, existindo algo que escapa o encerramento de seu sentido. O termo différance tornou-se o mais famoso e eficiente na constelação criado por Derrida.

              Antes de compreender o problema e o sentido que a différance expõe, é preciso explicar a que categoria ela pertence. Derrida pretendeu edificar uma série de termos que agenciassem aquilo que ele definiu como desconstrução. Entretanto, esta série deveria por em questão o primado da palavra e do conceito em filosofia. Tanto a palavra quanto o conceito são articuladores de representações. Através deles, os filósofos tentam da síntese a certos elementos linguísticos e cognitivos produzindo um sentido. Para não abalar a primado da representação no pensamento ocidental, Derrida constrói uma série denominada indecidíveis. Estes consistem em quase-palavras e quase-conceitos:

[…] unidades de simulacro, ‘falsas’ propriedades verbais, nominais ou semânticas, que não se deixam mais compreender na oposição filosófica (binária) e que, entretanto, habitam-na, opõe-lhe resistência, desorganizam-na, mas, sem nunca constituir um terceiro termo, sem nunca dar lugar a uma solução na forma da dialética especulativa (o pharmakon não é nem o remédio nem o veneno, nem o bem, nem o mal, nem o dentro nem o fora, nem a fala nem a escrita; o suplemento não é nem o mais nem um menos, nem um fora nem um complemento de dentro, nem um acidente nem uma essência, etc. […] [i].

              A différance será um dos primeiros indecidíveis utilizados por Derrida. Seu papel é trabalhar na relação tanto de identidade e diferença quanto na relação entre diferenças. Sua criação se dá por um erro ortográfico intencional, uma falta premeditada ao idioma francês como salienta o filósofo. Pela substituição da vogal “e” por “a” na palavra différence, Derrida expõe a língua ao inconveniente da escrita. No momento em que se fala a palavra, não se percebe o erro, ou seja, a diferença silenciosa da escrita pode levar a um deslocamento de sentido. Isto leva a problematizar a relação estrutural entre significante e significado na construção do sentido de uma palavra. Logo, o sentido nunca é contemporâneo da palavra, isto é, o processo sincrônico da significação pode ser diferido, retardado ou nunca chegar a sua plenitude. Nesse sentido, há um enxerto do particípio do verbo différer (diferir, retardar, atrasar), différant (diferido), na différence (diferença). Assim, a diferença em seu processo de différance não se apresenta a possibilidade de apropriação ou ao trabalho da  representação.

              Derrida esclarece a construção desse artifício linguístico e conceitual no ensaio “A diferença”, publicado em Margens da filosofia[ii]. Contudo, mesmo explicando em entrevistas e artigos, a différance agiu sobre um dos aspectos mais debatidos pelo autor: a tradução. Como ensinou Walter Benjamin, traduzir seria trair? Ou haveria uma força na tradução que Benjamin não percebeu? A tradução ou, mesmo, a intraduzibilidade de uma palavra estaria justamente referendando o problema exposto por Derrida. O esforço por adequar, ajustar as palavras entre um idioma e outro, deve enfrentar a condição da diferença entre ambos (neste caso, o francês e o português). Estas diferenças não encontram uma sincronia satisfatória.

              A tradução de différance, do francês para o português, foi um esforço desde o Glossário de Derrida, organizado pelo prof. Silviano Santiago, da PUC-RIO, em 1976[iii]. Passadas mais de três décadas, o problema permanece. Praticamente, toda editora que traduziu alguma obra de Jacques Derrida tentou realizar o feito, porém sempre insatisfatório. Num artigo “A Diferænça”, André Rangel Rios propõe a utilização do latim para resolver o problema, pois o símbolo “æ” possuía o mesmo efeito conseguido com a troca das vogais em différance. Antes de resolver o problema entre o português e o francês, conseguiu-se outro problema entre a autoridade decadente do latim em relação as suas línguas herdeiras.

              Entre alguns efeitos satisfatórios e outros desastrosos, as substituições foram as mais diversas[iv]. As pelejas em torno da tradução desse vocábulo foram dirimidas em um colóquio realizado na Unicamp: Traduzir Derrida – politicas e desconstruções. Nessa rodada de debates e palestras, o professor e tradutor recorrente da obra de Derrida, Evando Nascimento expos o problema em sua comunicação “Traduzir Derrida (uma questão de gerúndio)” [v]. Sem menores problemas, Nascimento reconhece a intraduzibilidade de différance como uma força do pensamento de Derrida. É na diferença irredutível que a desconstrução tem sua condição de possibilidade. Justamente, na impossibilidade de traduzir que se faz possível a différance. Por isso Derrida chama atenção:

O que o motivo da différance tem de universalizável em vista das diferenças é que ele permite pensar o processo de diferenciação para além de qualquer espécie de limites: quer se trate de limites culturais, nacionais lingüísticos ou mesmo humanos. Existe a différance desde que exista traço vivo, uma relação vida/morte ou presença/ausência.[vi]

            A partir dessas referencias mínimas, é preciso recomendar a não tradução do termo différance. O uso de artifícios dos mais variados e por razões tão quanto servem apenas para demonstrar os limites da língua e da linguagem no processo de produção do sentido. Por um lado, a tentativa de traduzir différancereforça o argumento filosófico de Derrida. Por outro lado, pode reverter-se num desastre didático, comprometendo a difusão do pensamento e da obra do mesmo. Em todo caso, a comunidade acadêmica, com seus fins institucionais e policiais, considera ponto pacífico atualmente a permanência do vocábulo no idioma francês.


[i] DERRIDA, J. Posições. Belo Horizonte: Autentica, 2001. p. 49

[ii] DERRIDA, J. Margens da Filosofia. Trad. Joaquim Torres Costa e António M. Magalhães. Campinas: Papirus, 1991. Cf. Tradução americana: Margins of Philosophy. trans. Alan Bass. Chicago-USA: Chicago University Press, 1982. Ver: Bennington, Geoffrey; Derrida, J. Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1996.

[iii] SANTIAGO, Silviano (superv.). Glossário de Derrida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

[iv] Veja-se a quantidade de propostas de tradução: différance, diferância, diferência, diferança, diferença, difer-ença, diferensa, diferænça, differença,  diferẽça,  dipherença.

Ver: http://www.unicamp.br/iel/traduzirderrida/folheto4.htm

[v] FERREIRA, Élida; OTTONI, Paulo. Traduzir Derrida: políticas e desconstruções. Campinas-SP: Mercado das Letras, 2006. p. 31-50

[vi] DERRIDA, J; ROUDINESCO, E. De que manhã: diálogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. p. 33.

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Sobre Desconstrução e Direito

O objetivo do grupo DESCONSTRUÇÃO e DIREITO consiste em compreender a obra de Jacques Derrida frente aos problemas jurídicos fundamentais: justiça, soberania, hospitalidade, norma, decisão, direitos humanos e poder, etc. Buscando dialogar com as teorias tradicionais e críticas da área jurídica, o grupo mantem uma articulação com pensadores afins ao debate pós-estruturalista. Coordenado pelo Prof. Ms. Manoel Uchôa.
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