O GRITO – A EXPRESSÃO FUNDAMENTAL DOS EXCLUÍDOS

O GRITO: A EXPRESSÃO FUNDAMENTAL DOS EXCLUÍDOS[1]

Manoel Uchôa

Há uma instância da luta politica que desafia a linguagem e o discurso enquanto suas condições de possibilidade. Por um lado, excede o dito da linguagem por um processo de expressão não monopolizado pelo homem. Por outro, burla a mera enunciação por que não deixa entrever seu enunciado. Não haveria, então, coágulos de sentido a comunicar, a não ser sua hemorragia.

O impulso vem do diafragma à fala. O calor, da intensidade à imagem. É a manifestação do que provem de alguns lapsos. Uma dor ou um trauma irresistível, sem elementos ou totalidades. A relação não é alerta, apenas. Nos que ousam ignorar, persiste alardeado. A condição estridente de um grito desafia o tempo e espaço. É a persistência um tempo e um espaço vindouro, ainda não chegado; logo, não solvido.

O espaço comum não ecoa uníssono nem harmônico. É o estridente. Estribilho de uma poesia não se permite escrita ou declamada. Esse trauma diafragmentado não se verte em tristeza. Pulsão, faz-se ouvir e ver, mas não gera crença. Mas não se verte em alegria, pois não ela não resiste à tortura. A não ser no amor (menos que todos, não poucos, mas com o sentimento do mundo).

O grito é a liberação do medo. É preciso profanar o medo no estridente. O risco de santifica-lo permanece no silêncio. Há um silêncio nas catedrais que nem mesmo os neopentecostais se atrevem a romper. A sacralidade cala. Se se grita é para deixar o medo fruir, atormentando-se a coragem sofrida. A coragem da fuga… Astúcia para lutar mais uma vez. Advém do desejo e da necessidade de fazer-se diferente do silêncio transcendental. Não fará essa coragem a lei ou o guardião. É nítida do homem do campo diante da interdição. Sujeito que se sujeita, mas não se dobra.

Com isso não se pense que o silêncio é a negação do grito. Sua condição de possibilidade só é percebida na inquietude do silêncio. Ainda assim, o grito é a impossibilidade de se silenciar. Na medida em que, mesmo no vazio, sua natureza vibra. Por isso, estridente ondulação. Há um poder que resiste ao vácuo: a intensidade ondulatória do grito. Só se pode pensar na sua intensidade. O real inimigo do grito é a vocalização, a acústica que direciona, canaliza e afeta sua intensidade. Destarte, o grito desafia a linguagem humana.

O grito consiste na crueldade mais animalesca. Embora o grito seja discursivo sem sê-lo, os animais não significam. Eles se expressam – potências de si. No devir-diafragma, o humano reencontra sua perdição. A diferença metafisica por excelência é comprometida pelo conteúdo politico do grito: romper com sua condição sensível. Novamente, o grito desafia a linguagem e o discursivo.

Encalece e arranha a voz da fala. Nesse ponto, o diafragma é esta tensão que estremece a voz. Uma voz sem fala, um falatório sem consciência. O peso muscular vibra o corpo. E, o estribilho é ar. Vendaval dos clamores e das barricadas. Não se pode definir uma dimensão politica a esta fenomenologia; ou melhor, é possível traçar uma fenomenologia a esse ato político? Faremos a pergunta equivocadamente. O grito confronta-se com partilha do sensível tanto quanto manifesta um caráter destrutivo.

Rompe a arquitetura, é espaçamento. Seu querer é por ar puro. Por isso, não faz imagem de si. O grito não tem imagem, mas fustiga a imaginação. Nesse caso, o excluído é definido na imanência de seu excesso. Não há estrutura transcendental. O excluído não permite sua idealidade. Logo, a materialidade do excluído, marginal, bárbaro (aquele que balbucia) consubstancia-se nos fantasmas. Espectros – aquele sem nome, sem estatuto, sem fala – fazem do grito sua arma politica, seu poder constituinte.

Não é à toa que a governança exige passeatas ordenadas, sem transtornos, sem barulho. A polícia torce, asfixia para que se possa dar sentido. Os advogados imediatamente postulam suas petições e os juízes suas sentenças. O grito não pode ser sancionado, isto é, não existem condições de validade para o estridente. Sendo assim, a civilização das passeatas e dos protestos é a destruição de sua experiência. A violência não reside no silêncio. É antes agenciada na vocalização do dizer no dito. As violências sistêmica e simbólica encontram seu repositório na gramática e nos regulamentos constituídos.

A expressão transforma-se em significação. Não para produzir espaço, afetação, o grito é comprimido na fala. Esvazia-se na transcendência da lei. O valor de fazer-se ouvir e ver é substituído por reconhecimento, por legitimação e legalidade. Talvez, não se ganhe no grito. Contudo, não se permite esquecer. Solicita-se a vocalização. Na distância, o estrondo gutural traz à tona a imanência absoluta.


[1] Texto concebido por ocasião do Grito dos excluídos, em 07 de setembro de 2012.

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Sobre Desconstrução e Direito

O objetivo do grupo DESCONSTRUÇÃO e DIREITO consiste em compreender a obra de Jacques Derrida frente aos problemas jurídicos fundamentais: justiça, soberania, hospitalidade, norma, decisão, direitos humanos e poder, etc. Buscando dialogar com as teorias tradicionais e críticas da área jurídica, o grupo mantem uma articulação com pensadores afins ao debate pós-estruturalista. Coordenado pelo Prof. Ms. Manoel Uchôa.
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