FRAGILIDADE E ACOLHIMENTO: O CORPO ENTRE O MAR E A TERRA SERIA ALGUÉM?

FRAGILIDADE E ACOLHIMENTO: O CORPO ENTRE O MAR E A TERRA SERIA ALGUÉM?

Por Desconstrução e Direito

 

Eles não suportariam ver fundamentalmente posto em questão o que eles acreditam saber, o que consideram como adquirido e convertem em moeda corrente todos os dias a respeito do homem, até mesmo do humanismo. (DERRIDA. Minhas “humanidades” do domingo)

De tempos em tempos, somos tomados por uma visita inconveniente. Um intruso que se apresenta não em sua plenitude, mas numa vertigem denunciando seu contratempo. Estas entidades podem ser bem definidas pela singularidade que nos acomete: parece que já a vimos antes, mas não é a mesma “coisa”. Por isso é que a indeterminação da “coisa” nos vem à mente. Não sabemos se é pessoa ou não, não sabemos se está vivo ou não. Não sabemos sequer como não antevimos sua chegada, ou melhor, sua volta.

Resistimos a entender que sua morte supera nossa apreensão do real. Ao mesmo tempo, permanecemos conscientes de que está ali, diante de nós, uma imagem que chega de um momento passado. Olhamos, em vertigem, a falta que nos assombra e o excesso que nos choca. Isso é viver entre espectros. Um passado chega para nos tomar um instante na TV, um acesso à rede, uma escuta ao rádio. Podemos ver, sentir e compartilhar uma imagem que, no entanto, é uma presença sem presente: a criança na praia é uma vida que poderia ter sido. Por ter vindo fora do tempo, ela se foi cedo demais.

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Não podemos afirmar que a imagem de uma criança morta oscilando entre a praia e o mar permita um retorno ao dia a dia das notícias ou seja apenas mais uma atualização de sistema. Essa imagem interrompe justamente onde a repetição banalizaria. Repetir a imagem não permite que a nossa fruição passe da afetação à revolta, e assim voltamos ao cotidiano. O que a hipocrisia da publicidade convertida em arte nos incita é um cinismo animador como a prece que não sacia o desejo pelo pecado, mas o potencializa. Converter a fotografia em tons de cores primárias suscita nossa necessidade de fugir para a normalidade. Tornar um evento nefasto numa gravura de tons melancólicos cria um significado sobreposto a violência marcada em luz.

As cores amortecem, deixam mais sensíveis os humanos suspirando aliviados. A sutil emulação da sensibilidade esvaindo-se na forma mais soberana de crueldade. A repetição dessa imagem se descola dessa dinâmica convencional? A primeira impressão é justamente que não há primeira impressão, mas sempre a tentação por reconduzir os acontecimentos à ordem do normal ou do necessário, ainda que um mal necessário. Por um instante fugaz como a vida de uma criança, no entanto, parece se abrir um momento para pensarmos o inoportuno, e até mesmo de forma inoportuna, contra o tempo que quer apenas se acumular e nos arrastar em direção ao próximo dia mais uma vez.

A situação das sociedades contemporâneas é de esquecer o futuro. Estamos diante da impossibilidade de prometer um possível para nós mesmos. A promessa de uma vida melhor, a promessa de um desenvolvimento, a promessa de uma paz perpétua, estão suspensas. Não há mais tempo, nem meios. E como não se pode garantir a promessa da humanidade a si, sua dignidade vindoura, recorre-se à força para reter a condição presente, impedindo que algo de fora a ameace. Ora, como não se chega a realização dos direitos que garantiriam a maioridade ao humano, ao menos os grupos de poder asseguram seus privilégios.

A criança acalantada pelo mar, sem volta do paraíso de seus sonhos, é a imagem da humanidade que dispende suas promessas no pesadelo de sua ideologia. O impasse é bem claro, ainda que não trivial. Há o que fazer e não há o que fazer pois as escolhas feitas pelos governos são baseadas na indecisão estéril das comunidades políticas. O dom da morte está vertido de forma perversa: deixar morrer é fazer morrer. Nesse sentido, os conflitos e calamidades provocados pelos mesmos países que atualmente se veem acometidos pela questão dos imigrantes indesejados parece impor uma decisão a todos estes no limiar dos territórios e das nações: ou ser morto diante dos massacres ou deixar-se morrer arrematado pela maré.

“Se dissermos que todos vocês podem vir, e que todos vocês da África podem vir, que todos podem vir, não daremos conta”[i]. A frase da chanceler alemã Merkel traduz todo o problema da promessa. Claro, alguns de nós poderiam afirmar que é uma questão realista, que não se pode fazer além da reserva do possível. Poderíamos então constatar que se suspende toda condição de existir e viver dessas pessoas com a mesma ternura que se explora países endividados pelas regras do mercado. Isso nos expõe à situação de cinismo.

Os grupos de interesse mantêm sua posição à custa de uma externalidade coletiva. Explora-se as riquezas dos países de origem dos indesejados, mas não se decide sobre a partilha daquilo que é comum em relação aos indesejados. Alguém duvida disso? Alguém se espanta como se fosse uma novidade? O cinismo é a partilha, então. O cinismo é o cerne do espaço público, não mais a mentira. Na situação de emergência se perpetua. Logo, não há o que fazer, apenas só aceitar. Assim, a ação política só consegue demonstrar seu pesar, para depois seguir em frente sem olhar para trás. O luto deve ser alocado nas drogas lucrativas do mercado europeu.

In March 1993 Carter made a trip to southern Sudan. The sound of soft, high-pitched whimpering near the village of Ayod attracted Carter to a young emaciated Sudanese toddler. The girl had stopped to rest while struggling to a feeding center, wherein a vulture had landed nearby. He said that he waited about 20 minutes, hoping that the vulture would spread its wings. It didn't. Carter snapped the haunting photograph and chased the vulture away. However, he also came under heavy criticism for just photographing — and not helping — the little girl.

O debate público parece, então, nos conduzir à dureza de uma antinomia do mundo contemporâneo. Há um impasse entre a promessa de Liberdade, reduzida ao consumo e a especulação, e a promessa de Igualdade, reduzida a políticas assistencialistas e à caridade dos homens de bens na forma da lei. Embora esse nó não desate tão facilmente, parece que o esquecimento do futuro tem a ver com uma questão secundária, comprometida e adiada: qual o lugar da promessa da Fraternidade?

Não estaria justamente a humanidade esquecendo justamente aquilo que torna o humano comum a todos os viventes e grupos? Começar ou retomar a crítica às formas que criamos para lidar com o que está entre nós parece apontar para um problema fundamental. A promessa de ver o outro enquanto irmão permanece acometida pelos espectros ali mesmo onde a materialidade da fome, da violência e da miséria nos aponta uma sociedade que não quer mais prometer a si mesma aquilo que ela viria a ser.

A vacilação reside na resiliência em assumir na fraternidade um critério de distinção entre o desejado e o indesejado, criando uma perversa economia de imigração: os estrangeiros podem vir até que se esgotem as posições subalternas disponíveis. Por outro lado, a fraternidade enquanto promessa se lança ao que não se espera, o porvir. Isso não se esgota nos números de refugiados apresentados e não se limita a uma questão episódica, a uma crise. Pelo contrário, é demandada uma postura diante dos fantasmas daqueles que foram, daqueles que poderiam ter sido e daqueles que ainda virão. O fraterno ou o amigo expõe a questão de ver o outro além de ser meu irmão. Não há familiaridade alguma, mas o pertencimento. Aquele que chega demanda um acolhimento incondicional diante das condições mais precárias.

A criança na praia é o retorno do menino vigiado pelos abutres, que é o retorno dos pivetes aquecidos pela calçada. Sempre mais uma vez de uma vez esses eventos nos chegam, nos chocam e nos conformam a uma passividade de piedade e medo. A repetição infernal é uma violência ainda mais brutal e ideológica, porque leva a acolher o destino dessas vidas como findos, porque esvazia aquilo e aquele que vem, para que volte ao normal do cotidiano. Contudo, a fragilidade das vidas que poderiam ter sido expõe a promessa de que ainda temos que acolher os espectros antes de prometer o acolhimento das pessoas.

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[i] Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150716_merkel_choro_menina_ss

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Sobre Desconstrução e Direito

O objetivo do grupo DESCONSTRUÇÃO e DIREITO consiste em compreender a obra de Jacques Derrida frente aos problemas jurídicos fundamentais: justiça, soberania, hospitalidade, norma, decisão, direitos humanos e poder, etc. Buscando dialogar com as teorias tradicionais e críticas da área jurídica, o grupo mantem uma articulação com pensadores afins ao debate pós-estruturalista. Coordenado pelo Prof. Ms. Manoel Uchôa.
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