‘DESCONSTRUÇÃO NÃO É O QUE VOCÊ PENSA’

Geoffrey Bennington y Jacques Derrida

‘DESCONSTRUÇÃO NÃO É O QUE VOCÊ PENSA’1

Geoffrey Bennington2

1. Desconstrução não é o que você pensa.

[…]

1.3. Desconstrução não é o que você pensa. Se o que você pensa é um conteúdo, presente a mente, na ‘sala de recepção’ da mente (mind’s presence-room)3 (Locke). Mas que você pense já pode ser Desconstrução.

2. Desconstrução não é (o que você pensa, se você pensa que é) essencialmente ter a ver com linguagem.

2.1. Nada mais comum que ouvir a Desconstrução descrita como dependendo de ‘uma extensão de paradigma linguístico’. “Não há fora-do-texto” (Derrida)4: prova isso, obviamente.

2.1.1. Todo mundo também sabe que isso não é bem correto. ‘Texto’ não é bem uma extensão de um conceito familiar, mas um deslocamento ou reinscrição desse. Texto em geral é qualquer sistema de marcas, rastros, remessas (referrals)5 (não diga referência (reference), tem um pouco mais de sentido que isso). Percepção é um texto.

2.2. Pense em reconhecimento. Dois requisitos: que o objeto de reconhecimento seja em princípio repetível como o mesmo objeto em um contexto diferente; que no dado contexto ele seja identificável como diferente de outros elementos daquele contexto. (Se ajudar, pense o primeiro como um requisito temporal, o segundo como espacial: mas espaço e tempo não determinam o texto, eles se tornam possíveis por ele)6.

2.2.1. Presença seria aquilo em que não há diferença, nem remessas (referral), nem rastro. O que é impossível. Assim, não haveria presença onde não há diferença, ou remessa (referral), ou rastro. Presença é tornada possível pelo rastro, que torna a pura presença impossível: cada momento presente é essencialmente constituído por sua retenção do rastro de um momento passado. Isso é justamente tão verdadeiro para o ‘primeiro’ momento presente quanto para qualquer outro, que desde já tem uma relação com um passado que nunca esteve presente: passado absoluto.

2.3. ‘Remeter’ não é referir num sentido linguístico. Desconstrução não tem um lugar para linguagem por aqui e um mundo lá para o qual se refere. Elementos na linguagem se referem uns aos outros para suas identidades, e se referem a marcas não-linguísticas que se referem por sua vez para suas identidades e diferenças. Não há nenhuma diferença essencial entre a linguagem e o mundo, um como sujeito, o outro como objeto. Há rastros.

2.3.1. Pense em Desconstrução como estendendo o paradigma mundo se quiser. Não faz diferença, contanto que você não pense o mundo como criado lá fora em oposição.

2.4. Claro que texto não significa discurso. Percepção não é discurso, é um texto. Discurso é um texto. (Mas ninguém pensa que você pode separar Desconstrução de linguagem. Nem do mundo. Texto não é uma mediação entre linguagem e mundo, mas um milieu (meio) em que tal distinção pode ser traçada).

3. Desconstrução não é uma teoria ou um projeto. Não prescreve uma prática mais ou menos fiel a si, nem projeta uma imagem de um estado desejável a ser produzido.

3.1. Desconstrução é necessária.

[…]

4. Pintura. Não é apenas que pintar é provavelmente impensável sem linguagem. Certamente não que uma pintura seja “como uma linguagem”. Mas não há problemas em pensar a pintura como diferença e rastro. O ‘evento da presença’ (Lyotard)7 que uma pintura apresenta seria muito inapresentável de outra forma.

4.1. Uma pintura é um texto, claro. O problema é saber que tipo de texto. Desconstrução não é de modo algum tratar uma pintura como um texto ‘escrito’, ‘lendo’-a etc. (A não ser que ‘ler’ esteja deslocado da mesma forma que texto).

4.1.1. Ler não é um mero processo de decifrar, nem de interpretar, para Desconstrução. Nem é inteiramente respeitável ou simplesmente violento. ‘Segura produção de insegurança’ (Derrida)8. Ler não é performado por um sujeito posto contra o texto como objeto: ler está imbricado no texto que se lê. Deixe um rastro no texto se você puder.

4.2. Escreva sobre a maneira que se tem escrito sobre a pintura (em sua suposta relação com a verdade, especialmente), mais do lado da pintura que da tentativa de falar sua verdade. Isso é algo a ser feito.

4.3. Mas seja muito cuidadoso antes de escrever sobre pintura.

4.3.1 Escrever sobre pintura é fácil se você pensa que escrever e pintar não se misturam. Desde que pintar não é escrever e escrever não é pintar, fácil o suficiente se manter escrevendo (ou pintando). Mas é tão ruim como pensar que escrever e pintar são simplesmente a mesmo tipo de coisa (ut pictura poesis).

4.3.2. Mas nas remessas do texto, a segurança das divisões cede e com isso a segurança das passagens através das divisões. Não é um grande drama cruzar fronteiras desde que você saiba onde ela está.

4.3.3. Escrever pode sem dúvida fazer coisas que pintar não pode, e vice-versa. Mas não faça muito de iterabilidade e idealidade do lado da escrita, singularidade e materialidade do lado da pintura. Claro que há diferenças entre o texto literário e a pintura: mas a última é também reprodutível. A era da reprodução técnica (Benjamin)9 não acomete a pintura como uma catástrofe: aura já está sempre sendo perdida.

[…]

5. Cor. Onde está a cor na Desconstrução?

5.1 Cor é uma questão de valores diferenciais, e portanto rastro. Isso não é um ponto sobre vocabulário de cor, mas sobre cor. Desconstrução não é relativismo linguístico. Cor é (está), em Desconstrução10.

[…]

6 ‘Pintura desconstrucionista’ não poderia ser o resultado de uma aplicação bem sucedida da teoria de Derrida (ver 3).

6.1. Desconstrução na pintura sempre já começou.

6.2. Claro que a pintura pode ser ‘influenciada’ pela escrita de Derrida. Isso não a faz ipso facto ‘desconstrutiva’.

6.2.1. É bem possível que a mais ‘desconstrutiva’ das pinturas deve (ter) acontecer(ido) na ignorância das obras de Derrida, embora o conhecimento da obra de Derrida possa nos ajudar a falar sobre pintura, e outras.

[…]

7. Uma pintura pode tentar ser uma ‘leitura’ dos textos de Derrida. Adami11. Deixe um rastro no texto se você puder.

____________________

1Tradução, revisão e notas realizadas por Antonio Henrique, Arthur Prado e Manoel Uchôa, membros do grupo de estudos Desconstrução & Direito. Não há qualquer fim lucrativo. O objetivo da tradução é estritamente acadêmico.

2Geoffrey Bennington (1956) é um filósofo britânico e crítico literário. Organiza a tradução dos Seminários de Jacques Derrida nos Estados Unidos pela Chicago University Press. Autor do livro Jacques Derrida, uma das melhores introduções ao pensamento do filósofo franco-argelino, contendo o ensaio autobiográfico filosófico, Circonfissão. (BENNINGTON, G; DERRIDA, J. Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996).

3Ver Segunda parte, capítulo III, em: LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Optamos por seguir a tradução brasileira da expressão the mind’s presence-room a fim de preservar a noção de recepção das sensações ainda não analisadas pelo entendimento. Na versão portuguesa (Fundação Calouste Gulbenkian), há a opção por “sala de audiências”. Bennignton remete implicitamente a um artigo que compõe seu livro Legislations: the politics of deconstruction. Nesse sentido, interessa a Bennington frisar a semelhança em relação a noção de arqui-escritura (archi-ecriture) de Derrida. Para Locke, a origem da ideia é dividida e nunca presente, isto é, não há uma passividade na recepção das sensações como se o sujeito fosse uma tabula rasa. A mente divide-se na reflexão que acolhe as sensações e é justamente a condição para sentir.

4Ver: DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 194.

5A tradução de referrals por remessa marca a noção de deslocamento que constitui o jogo na estrutura da linguagem. O dualismo do signo não se esgota na referência, mas em como o próprio referente é produto de reenvios, que o duplicam constantemente através dos contextos e no sistema da língua. Talvez seja necessário remeter aos textos iniciais de Derrida como A Voz e o Fenômeno ou Margens da filosofia.

6Bennington alude a duas noções derridianas que compõem a différance: Temporalização (devir-tempo do espaço) e Espaçamento (devir-espaço do tempo). Por um lado, o “tempo” da différance está no diferimento, no atraso que não interrompe ou desvia a pretensa simultaneidade entre significante e significado. Por outro, o “espaço” da différance é a oportunidade do lugar, da posição que distingue um ente de outro, o que permite a própria repetição dos eventos. Para maior esclarecimento ver: SANTIAGO, Silviano. Glossário de Derrida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976; Nascimento, Evando. Derrida e a literatura: “notas” de literatura e filosofia nos “textos” da desconstrução. Niterói-RJ: EdUFF, 2001.

7Há para Lyotard uma presença como evento diferido, ou seja, o evento é uma ambiguidade entre uma presença e uma ausência que lhe é constitutiva. Ver: LYOTARD, J-F. The Differend: phrases in dispute. Manchester: Mangester University Press, 1988.

8Derrida escreve numa nota sobre o problema do discurso como representação de si: “produzir seguramente a insegurança, abrindo-se para o seu fora, o que só pode ser feito de um certo dentro”. Ver: DERRIDA, J. A Voz e o Fenômeno. São Paulo: Jorge Zahar Editora, 1994. p.67.

9Ensaio dos mais importante de Walter Benjamin. Possui ao menos 4 versões. Na primeira versão, Benjamin define a aura como “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”. A reprodução técnica propicia o declínio da aura na medida em que realiza a massificação dessas singularidades, ou seja, perde-se o momento único da experiência das coisas para a sua objetificação conformando as experiências a uma totalização meramente quantificável. Por exemplo, a estatística assumiria a condição de planificar a apreensão do mundo. A reprodutibilidade desloca a obra de arte da autenticidade de seu ritual para a política, transformando a função social da arte. Ver: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura, história da cultura. 7ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.(Obras escolhidas vol 1).

10No original: “Colour is, in deconstruction”. O autor parece apelar para a ambiguidade entre uma condição e um processo em relação a desconstrução.

11Valerio ADAMI (1935-), desenvolveu alguns estudos artísticos após a leitura de Glas. Derrida dedicou um ensaio publicado em La verité em peinture. Ver: DERRIDA, J. +R (Into the Bargain). in: The truth of painting. Chicago: Chicago University Press, 1987.

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Sobre Desconstrução e Direito

O objetivo do grupo DESCONSTRUÇÃO e DIREITO consiste em compreender a obra de Jacques Derrida frente aos problemas jurídicos fundamentais: justiça, soberania, hospitalidade, norma, decisão, direitos humanos e poder, etc. Buscando dialogar com as teorias tradicionais e críticas da área jurídica, o grupo mantem uma articulação com pensadores afins ao debate pós-estruturalista. Coordenado pelo Prof. Ms. Manoel Uchôa.
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